27 fev 2017

O dia em que a macumba entrou no Shopping

Postado em: Comportamento

Um dia, o grande General de Umbanda montou em seu cavalo e percorreu os campos de Aruanda em busca da Vovó Catarina. Pediu licença a Oxóssi e entrou na mata, avistou logo a casinha caiada coberta de sapê e sabia que a velhinha estava em casa porque saía fumaça da chaminé.
Ogum apeou seu cavalo, surgiu de mansinho na porta que mal lhe cabia e fez uma reverência àquela figura miúda que estava à beira do fogão de lenha com uma caneca de café em uma mão e um rosário na outra.
Ogum entrou, se ajoelhou, baixou sua cabeça, segurou as mãos da Vovó Catarina:
-Sua bênção, minha velha!
– Oxalá lhe abençoe, meu fio. Salve sua força! Apois, se alevante! Onde já se viu um generá se ajoelhá na frente de uma nega véia escrava, meu Jesuis! Eu lhe saúdo, Ogum iê! Salve o Cavaleiro de Oxalá!
E a Vovó pegou seu cachimbo, foi enchendo de fumo.
– O que te traz aqui por essas banda, meu fio?
– Vim buscar a Vovó pra correr uma Gira.
Baforando sua fumaça, correndo os dedos com muita agilidade nas contas do rosário ela sorriu.
– He, he, he. Correr gira, fio? Nega véia num corre mai não. Mai ocê tem tantos cavaleiro, pra que há de querer nega véia correno gira cum ocê, fio? De certo que num é bem da correria que ocê tá pricisano, né fio?!
– Não, minha velha. Eu preciso levar a senhora em um lugar. Nós temos uma missão a cumprir.
– He he he. Nega véia tá a serviço da Lei Maior, né fio. Intonce vamo. Dêxa véia pegá a sacola com os petrêcho de véia, que o pito pode fazê farta, um chêro de arfazema também, um rosário é sempre bom ter por perto, e uns galhinho de erva. Pronto fio, simbora.
Ogum assentou Vovó Catarina em seu cavalo cuidadosamente, e foi caminhando puxando a rédea pelo caminho. Passaram pelos portais astrais, pelos caminhos encantados, pelas faixas vibratórias que dividem os mundos até chegarem à Terra.
– Vovó, lembra do tempo que os escravos escondiam a sua crença nos Orixás para não serem mortos e castigados?
-Claro, fio. Era um tempo triste, sofrido. Mas nóis tivemo uma grande oportunidade de aprender e evoluir, e de fortalecer nossa fé.
– Vovó, sabe que até hoje tem muita gente que esconde a fé nos Orixás e nos espíritos. Uns porque são obrigados pelo preconceito de outros. Mas tem aqueles que escondem porque eles mesmos não aceitam a própria fé. E a religião, o exercício da fé, Vovó, fica relegado às margens, aos lugares menos vistos. Não se pode falar disso abertamente, nem divulgar. O espaço de comunicação se torna limitado. Os governantes dizem em suas leis que é direito de todos professarem a sua fé, mas na verdade não é bem assim que acontece. A sociedade empurra as religiões dos Orixás para os guetos, para as periferias, para as vielas, e praticam até mesmo a violência contra os filhos de Santo que lutam por seus direitos.
– Véia tá entendendo ocê, fio.
Ogum, Vovó e o cavalo já chegavam a um lugar amplo, um prédio grande com um estacionamento vasto. Tudo estava vazio. Avistaram Exú, que guardava a entrada, como tem que ser.
– Salve, Salve, Ogum aqui por essas bandas! – disse Exú, sorrindo largamente para Ogum.
Ogum fez uma saudação firme, como é seu costume.
– Salve sua força, Exú! Sempre é tempo de trabalhar para o bem.
Exú se curvou com uma mão no peito, diante da Preta Velha.
– Ora, ora, que essa velha carquilhada ainda aguenta caminhar! Sua bênção, velha Catarina!
– Oxalá te abençoe! Toma jeito, Exú! Oia o respeito cum os mais véio! Quem sabe o Pai Maior muda de ideia e ocê fica véio um dia também!
Exú gargalha alto, se divertindo com a brincadeira.
– Exú, temos missão a cumprir neste lugar. Monte guarda especial. Um novo portal de luz será aberto aqui. Faça a sua parte – disse Ogum.
– Opa! Sim, Senhor Capitão! Algo mais, Senhor Capitão? Quer uma bebida, Senhor Capitão? – perguntou Exú, fazendo uma continência para Ogum, em tom de chacota.
Ogum olhou sério para Exú. Não disse nada, sabia que essa é a natureza dele, mas que ele faria seu trabalho com perfeição. E então Vovó disse para Ogum:
– Vamo fazer nosso trabaio, fio.
Entraram no prédio, andando calmamente pelos corredores. Passavam pelas poucas pessoas que havia no lugar, e, como espíritos que são, não eram vistos. Mas podiam ser sentidos por algumas pessoas. Pararam de frente a uma porta de vidro. Ogum apeou seu cavalo, desceu a Vovó. Ficaram os dois ali parados olhando o lugar por alguns instantes, em silêncio. Avistaram Exú, que, como o vento que está em toda parte, andava por ali a zombar das sujeiras que alguns passantes tentavam esconder dentro de si, no coração, no pensamento.
– Vovó, hoje é o dia em que Ogum e as Almas Benditas vão entrar e fazer parte material desse lugar. Do astral nós sempre atuamos aqui, mas agora será visto pelos olhos da matéria que a religião desse povo afro-brasileiro ocupou também esta Casa Grande.
– Fio, tem um toco de madeira pra véia sentar, espia?! E tem pito de nego véio, tem pemba, coité e caneca. Oia, fio, tem defumadô, tem toco encarnado de Ogum, tem erva pra fazê banhadô. Tá bonito, fio!
– Sim, minha velha. A filha que arrumou esse cantinho respeita e faz tudo com o seu melhor Axé!
Vovó encheu seu cachimbo, acendeu, deu uma baforada no ar, cerrou os olhos.
– Véia tá vendo isso, fio. Véia conhece essa fia, muita luta, muita fé. Esse povo todo daqui dessa senzala que tá junto dela também. De hoje em diante, fio, muitos vão ter um tiquinho mais de respeito pelos petrecho de véia e do Axé, pelos toco aceso, pelas reza, pelas roupa branca que os fio veste pra fazer a caridade. Porque parece, fio, que precisa a gente se mostrar num lugar bonito, suntuoso desse aqui pras pessoa respeitá a gente e os nossos fio de pemba. He he he, quanta bobagem, né fio. Mas, se é assim aqui na Terra, nesses tempo que os homens tão viveno, que assim seja feito, que é a vontade de Deus.
– Esse é um pequeno passo aos olhos dos homens, daqueles que irão julgar, atirar pedras, atacar, porque assim tem sido desde o início dos tempos. Mas nós sabemos que a escala da evolução segue em outra proporção. A força de Ogum segue aqui representada pela proteção, pela luta contra as demandas e pela vitória. A força das Almas Benditas fica representada pela paciência, misericórdia e sabedoria.
– Fio, só mais uma coisa. Ocê dá permissão pra uma Pombagira Cigana irradiar aqui junto de nóis?
– Minha velha, a filha já foi intuída por ela. Eu permito sim.
Lília Saigg
Colaboração: Vitor Almeida

27 fev 2017

Amores….

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Mores, Jesus não voltou nem quando Hitler estava matando milhares de judeus nos campos de concentração, vocês acham mesmo que ele vai voltar porque Pedro gosta de João? ou porque João se identifica como Maria? Menos.

27 fev 2017

Eu tenho Síndrome de Pânico sabe?

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Olha, eu tenho Síndrome do Pânico sabe? E, eu não sei se os sintomas de todos são iguais ou se acontece só comigo, mas qualquer barulho estranho, cheiro (no meu caso esses dois são porque aconteceram já coisas aqui em casa que eu escutei ou senti o cheiro de algo que depois se transformaram em coisas terríveis, com isso fiquei com uma certa paranóia), mudanças (seja no trabalho, na vida pessoal, no país), tomam proporções muito maiores do que as pessoas que não possuem essa doença (ou outras de âmbito psicológico/psiquiátrico) possam pensar.
Pra ter uma ideia, eu já tive um pequeno incêndio aqui em casa, então todo cheiro de queimado, vindo até da rua, eu já fico apavorada.
Outra ideia, meu teto de gesso caiu por causa de uma infiltração, então todo pequeno barulho eu já fico em estado de alerta, sim além do medo existe um “estado de alerta”, e isso me causa muito mal a ponto de outras coisas que seriam importantes eu deixar de lado.
Eu imagino que não é fácil conviver com uma pessoa assim, e principalmente sendo mulher porque quando estamos de TPM sabemos que os hormônios aumentam todos os nossos sentidos e sentimentos.
A falta de ar, o pânico, o alerta, a angústia e etc tomam conta constantemente, mesmo com tratamento.
Eu sei o que preciso fazer pra que isso não me afete tanto, mas sei também que quando estamos passando por determinados momentos da nossa vida é quase que impossível traçar todos os passos terapêuticos pra que isso não me me afete tanto.
Eu sei que todos, com ou sem essa doença, tem problemas em suas vidas, sim eu sei.
Mas eu gostaria muito que pessoas que não tenham essa doença e que convivem com a gente, seja virtualmente ou pessoalmente, a partir do momento que sabem dessa condição pudessem se informar mais para uma convivência melhor.
É muito difícil para nós, neuroatípicos, as vezes sequer saber se estamos em crise ou não.
Eu gostaria muito que houvesse um remédio, uma sessão de terapia, uma macumba, uma reza, uma oração que pudesse jogar pra longe isso tudo, mas não é bem assim.
Sabemos que é um conjunto de fatores/ações que temos que tomar para poder melhorar essas crises e fobias, muitas vezes medicação (coisa que eu detesto) com terapia e etc.
Mas eu realmente gostaria que as pessoas que não possuem “isso” pudessem ter uma noção, eu digo noção porque não vão saber como realmente é ou como realmente se desenvolve em nós, e com essa noção baseada em estudos (tem muita coisa na internet) e até grupos de familiares pudessem no mínimo nos entender e ajudar.
É só isso mesmo.

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